13.5.08

Apagão

Não sou entusiasta de Robert Rauschenberg (1925-2008), mas gosto muitíssimo de Erased de Kooning Drawing (1953), que consiste, como o nome indica, num desenho de De Kooning laboriosamente apagado (com a concordância do mestre). O «apagão» deu origem a um objecto híbrido composto por «traces of ink and crayon on paper». É uma das maneiras mais notáveis de «matar o pai» que conheço. Uma iconoclastia consentida pelo próprio ícone.

12.5.08

A coisa amada

É evidente que às vezes os imagino na cama. Não se transforma o amador na cousa amada, mas transformo o que dela sei e imagino, tudo o que eu disse e nem tive tempo de dizer mais, agora em lábios que ela deseja, os pequenos abandonos controlados dela, geografias que conheço. Por virtude do muito imaginar vejo o corpo dela, entre sombras e lençóis, e o corpo dele, mais destapado, digno de, aquilo que o meu corpo deseja também desejam eles os dois em uníssono, eu imaginando e eles transformados, duas pernas no meio de duas, uma pressão no ombro, o fôlego contagioso. E nessa imaginação estou transformado. Por virtude daquele corpo que ela recebe sem defesas vejo uma justiça feita com sombras e lençóis, matéria material, e eu imaginando o que imaginei, e transformado não na cousa amada mas em simples cousa. Imaginando e transformado em coisa.

Aos trinta e tantos

Aos trinta e poucos, trinta e tantos, os jogadores de futebol cessam actividade. Aos trintas, já falta condição física que aguente meses de competição, noventa minutos em campo, a concorrência de jogadores mais jovens. Aos trinta e tantos, é boa idade para abandonar o jogo.

9.5.08

Relendo moleskines



Fui Cassandra de mim mesmo. Fraco consolo.

Relâmpagos (2)

Há momentos como este (uma efeméride) em que custa mais aquele all quiet on the western front que se exibe como defesa. A memória dói tanto como a realidade. Mas é como um relâmpago: conto os segundos e espero que passe.

Relâmpagos (1)

(…) I cross the street, I run into the movies or a bar, I buy a drink, I speak to the nearest stranger—anything that can blow your candles out! —for nowadays the world is lit by lightning! Blow out your candles Laura (…).

(Tom Wingfield sobre a sua irmã Laura Wingfield, The Glass Menagerie, 1944)

8.5.08

Tia



Acho sempre mal quando usam «tia» como insulto.

Bidé

We were great in bed. It was usually on the way to the bidet when the trouble began. Assim descreveu Frank Sinatra a sua relação com Ava Gardner.

Connosco, foi um bocado ao contrário: o «bidé» sempre mais proveitoso que a «cama». Cada um tem as tragédias que merece.

7.5.08

Tem hoje início mais uma edição do ciclo A Justiça no Cinema, organizado pela Associação Jurídica do Porto, a Associação Sindical dos Juízes Portugueses, o Cineclube do Porto e a Medeia Filmes. Esta noite, às 21.30, no Cine-Estúdio do Teatro do Campo Alegre (Porto), será exibido o filme Ruptura (2007), de Gregory Hoblit, seguido de um debate com a participação do juiz-desembargador Artur Oliveira, do advogado Duarte Nuno Correia e do licenciado Pedro Mexia.

Já não há valores

A secção Gay da Time Out traz uma entrevista à coreógrafa Olga Roriz que contém algumas revelações chocantes: «Neste momento, a maior parte das companhias [de dança] está cheia de heterossexuais. Quando comecei eles eram mesmo todos gays». E mais: «(…) muitos homens hoje vão para o Conservatório porque sabem que vão encontrar miúdas giras».



Homens que se tornam bailarinos para conhecerem miúdas giras. É toda uma civilização em crise.

Maio #2: «mas pelo menos foi uma revolução sexual»

Um estudo sobre comportamentos sexuais do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa chegou a algumas conclusões curiosas. Apenas 1/3 das mulheres inquiridas disseram ter sempre prazer nas relações sexuais. 1/3 das mulheres manifestaram desinteresse pela actividade sexual. O terço que falta, suponho, tem prazer de vez em quando.

Maio #1: Direito de visita

Um movimento que começa com uma reivindicação do «direito de visita» aos dormitórios das raparigas não pode ser totalmente mau.

5.5.08

Política



Ricky Gervais não é um sujeito especialmente politizado. Em algumas entrevistas assume o seu ateísmo e a defesa dos «direitos dos animais», e chega. Também não é exactamente uma agenda «reaccionária». Como se explica então que o volume 2 do seu espectáculo a solo, Politics, esteja cheio de piadas reaças? Exemplos: farpas a Gandhi e aos seus «óculos do National Health Service», farpas à mudança da «idade do consentimento» gay («não vi ninguém de 16 anos nessa marcha»), farpas a John Lennon e a esse acto de «resistência» que consiste em ficar na cama. Em certos momentos vemos que Gervais choca a plateia, porque a plateia tem alguns valores «de esquerda» como os valores decentes. Se o Ocidente «virou à direita» desde a queda do bloco soviético, os objectos de hagiografia (Che) e escárnio (a religião) ainda são em grande medida ditados pela esquerda. É uma vaga noção de «sentido da História» que sobreviveu e não creio que alguma vez se extinga. Daí que seja aliciante fazer humor «de direita» (mesmo quando não se é de direita): porque isso choca muita gente. E o humor que não choca ninguém não vale nada.

Dice qualcosa di destra

Totalmente de acordo. Não sei se Pedro Passos Coelho é um bom candidato. Sei aliás muito pouco sobre Passos Coelho. Mas sei que ao Correio da Manhã disse: « (…) nada justifica que o Estado detenha bancos, estações de televisão ou que detenha outras empresas». E sei que um partido que quer os votos da direita devia de vez em quando dizer assim alguma coisa de direita.

E agora uma canelada

Dizia esta senhora que enquanto se não demonstrasse que as mulheres seduziam os homens, havia de ser indulgente com as seduzidas.

(Camilo)

4.5.08

Dia da mãe

Desacordo

(...) não podemos deixar de manifestar o nosso desacordo e a nossa mais profunda indignação acerca das modificações previstas para a ortografia portuguesa que, além de contraditórias, só irão causar mais confusão para quem aprende e, mais importante, fala o português.

O próprio acordo entra em contradição variadas vezes. Está previsto que se retirem os “c’s” e os “p’s” mudos, desprezando a etimologia das palavras, mas também está previsto que se mantenham os “h’s” mudos (“homem”, “harmonia”), devido à etimologia das palavras. Onde está a coerência nisto?

Para além deste facto, a eliminação dos “c’s” e dos “p’s” mudos irá causar imensa confusão para quem aprende e fala a língua portuguesa em Portugal, visto que vai contra as regras da pronúncia do português nesse país. Isto porque, apesar de não se lerem explicitamente, os “c’s” e os “p’s” são essenciais para indicar a abertura da vogal que lhes precede. Eis alguns exemplos práticos que o demonstram claramente:

• Na palavra “cação”, o primeiro “a” é fechado; lê-se, portanto, “câ-ção”. Na palavra “facção”, o primeiro “a” é aberto pela letra “c” que lhe sucede; lê-se, portanto, “fá-ção”. Ora, o acordo estabelece que se escreva “facção” como se escreve “cação”: “fação”. Mas nesse caso, qual a pronúncia correcta desta palavra? Segundo as regras da pronúncia do português de Portugal, deveria ler-se “fâ-ção”, visto que não há nenhum “c” que abra a vogal “a”!

• Na palavra “adoçar”, a letra “o” tem o valor de “u”; lê-se, portanto, “a-du-çar”. Na palavra “adopção”, a letra “o” é aberta pela letra “p” que lhe sucede; lê-se, portanto, “a-dó-ção”. Ora, o acordo estabelece que se escreva “adopção” como se escreve “adoçar”: “adoção”. Mas nesse caso, qual a pronúncia correcta desta palavra? Segundo as regras da pronúncia do português de Portugal, deveria ler-se “a-du-ção”, visto que não há nenhum “p” que abra a vogal “o”!

• Na palavra “tropeção”, a letra “e” é muda; lê-se, portanto, “tru-p’-ção”. Na palavra “inspecção”, a letra “e” é aberta pela letra “c” que lhe sucede; lê-se portanto, “ins-pé-ção”. Ora, o acordo estabelece que se escreva “inspecção” como se escreve “tropeção”: “inspeção”. Mas nesse caso, qual a pronúncia correcta desta palavra? Segundo as regras da pronúncia do português de Portugal, deveria ler-se “ins-p’-ção”, visto que não há nenhum “c” que abra a vogal “e”!

Evidentemente que poderíamos continuar com um vasto rol de exemplos, mas estes parecem-nos bastante elucidativos das graves consequências que estas modificações irão trazer.


(assine aqui a petição contra o Acordo Ortográfico)

O esqueleto

Conheço pessoas que imaginam que o pessimismo (como categoria) varia com a «disposição» ou com os «acontecimentos», mas o pessimismo não é nada disso, mesmo nada disso, o pessimismo está cá sempre, como o esqueleto, não muda, não progride, não desiste, e quem testa o meu pessimismo convém que não tenha medo de esqueletos.

No sentido da corrente

Nunca conheci ninguém que nadasse em sentido contrário à corrente. Conheço gente que faz coisas complicadas, corajosas, espantosas, mas sempre sempre no sentido da corrente. Toda a gente aceita um «sistema» e exerce a sua liberdade dentro desse sistema. Ninguém nada em direcção à nascente, vão sempre para a foz. Há pessoas de quem gosto, que admiro, que invejo, mas todas sem excepção agiram de modo previsível, de acordo com certas leis sociais ou biológicas, nunca ninguém fez nada que um «especialista» não explicasse como exemplo de manual. Talvez perguntem se fico triste com essa evidência. Talvez eu prefira não responder.

Azar ao jogo

The Cooler (2002) é um filme que oferece a William H. Macy mais um dos seus típicos papéis de «loser» (como em Fargo, Edmond, etc). Neste filme de Wayne Kramer, Macy é um «cooler», funcionário de um casino cuja função é trazer azar aos jogadores que estão em noite sortuda. Ele é um tipo naturalmente azarado, e parece que contamina aqueles de quem se aproxima. O método talvez seja duvidoso, mas funciona: os jogadores que ganhavam começam a perder quando ele chega. Quando Macy decide deixar aquela vida, o seu patrão (um estupendo Alec Baldwin) paga a uma atraente empregada de mesa (Maria Bello) para que ela o mantenha pelo beicinho. O que não estava previsto é que ela se apaixonasse por aquele desgraçado e lhe trouxesse sorte, uma sorte que depois também contagia toda a gente. «Mr Cooler» encontrou essa figura mítica das salas de jogos, «Lady Luck». Mas sorte ao amor & sorte ao jogo é demasiado, sobretudo tendo em conta que a profissão de Macy consistia especificamente em ter azar. The Cooler não está isento de fragilidades, mas como «character study» é mais um triunfo para Macy (um dos actores fetiche de David Mamet). E consegue dar a volta ao provérbio do jogo e do amor, com alguma dose de romantismo e outra de fatalismo.

Uma questão de perspectiva

Não, é claro que Caroline não tem o «braço direito em volta da cintura», aquilo é o casaco atado com um nó, e eu já tinha visto a foto tantas vezes e sabia isso, mas quando escrevi o texto, com uma reprodução pequenina da foto ao lado do teclado, vi um braço onde estava um casaco, e descrevi mal a foto, baseado nos sentidos e não na memória. E no dia seguinte quando li a crónica no jornal pensei «mas qual braço?». E sei que não foi a primeira nem a última vez que errei por uma questão de perspectiva.

3.5.08

Maverick



Boris Johnson, o menos «respeitável» dos Tories, é o novo mayor de Londres. De entre os políticos europeus concorrentes a eleições directas para cargos unipessoais, apenas Sarkozy e Cavaco foram eleitos com mais votos.

2.5.08

Caroline de Bendern



Os revolucionários veneram símbolos e multidões. A revolução é uma mitologia, e a mitologia também consiste em adequar uma realidade a uma ideia. Pensemos em Caroline de Bendern, a “Marianne” do Maio de 68. Uma rapariga loura de cabelo curto (ou apanhado?), pescoço e feições esculturais, braço direito em volta da cintura, casaquinho com botões, sentada aos ombros de um homem que não vemos, agitando uma bandeira vietnamita. É a mais memorável das raparigas de 1968, uma Julie Christie da rue Saint-Antoine. Uma mulher revolucionária é uma coisa, mas uma mulher bonita é sempre outra coisa. [...]

(no Público de amanhã)

«Eles»

David Mamet nasceu em 1947, em Chicago, numa família judaica. Fundador da Atlantic Theater Company, tornou-se conhecido com The Duck Variations (1972), Sexual Perversity in Chicago (1974) e American Buffalo (1975). Essas três peças têm a mesma matriz: enredos minimais centrados em diálogos bruscos e obscenos entre homens (Mamet tem o melhor ouvido do teatro americano). Sexual Perversity e The Woods (1977) são textos sobre a «masculinidade» e a sexualidade nas sociedades actuais; mas Mamet sempre teve também uma costela mais especificamente «política»: em American Buffalo os pequenos criminosos não passavam da fase de discussão dos seus pequenos crimes, esquema aperfeiçoado em Glengarry Glen Ross (1984), que ganhou o Pulitzer, e que segue as conspirações de agentes imobiliários corruptos, e em Speed-the-Plow (1988), com dois produtores de Hollywood que discutem a arte & o sucesso. Todos eles congeminam os mesmos esquemas fraudulentos e soltam as mesmas frases ofensivas. Essa veia mais polémica atingiu o auge com uma peça sobre o assédio sexual, Oleanna (1992), odiada pelas feministas. Algumas peças mais recentes apostam numa maior complexidade narrativa e em mudanças do esquema básico: Cryptogram (1995) passa-se nos anos 1950 e Boston Marriage (1999) é uma história de mulheres. Mas há muito que David Mamet já não é apenas um dramaturgo.

Na verdade, desde 1981 (O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes) que ele trabalha como argumentista, muitas vezes para ganhar dinheiro que financie projectos pessoas. Colaborou na versão cinematográfica de várias peças suas (como o inferno sexual de Edmond, baseado num texto de 1982) e também se tornou um cineasta de dramas labirínticos, uma carreira prolífica que começou com os vigaristas de House of Games (1987) e cujo último capítulo é um drama de artes marciais, Redbelt (2008). Escreveu ainda três romances, pequenos ensaios, textos sobre o anti-semitismo e contra o Método. Teve uma série de televisão (The Unit) e colabora no blogue de celebridades The Huffington Post. A preguiça não é um dos seus defeitos.

Politicamente, tem sido uma caixinha de surpresas. Depois de uma sátira ao bushismo (November, 2007), escreveu um artigo no esquerdista Village Voice dizendo que já não é um «brain-dead liberal» (sic) como noutros tempos. Ainda não se percebeu bem o que é agora. “Liberal” ou não, Mamet sempre teve (e mantém) uma visão crítica dos mecanismos sociais e económicos do capitalismo, como víamos já em Um Conto Americano / The Water Engine (1977), que agora estreia em Lisboa. The Water Engine nasceu como peça radiofónica e em 1978 chegou à Broadway, juntamente com um monólogo afim (Mr. Happiness). A personagem principal da peça é Charles Lang, que inventou um motor que trabalha a água. Quando tenta registar a patente da sua criação, cai nas malhas de dois advogados mafiosos que não olham a meios para se apropriarem daquela máquina revolucionária. Num texto chamado “Concerning ‘The Water Engine’” (recolhido na colectânea A Whore’s Profession, 1994), Mamet explica que entre os mitos mais frequentes está a ideia de que «eles» 0 suprimem por todos os meios as ideias que beneficiam o cidadão comum. Quem são «eles»? São o Governo, as Grandes Empresas, enfim, as instituições, esses colectivos que Mamet acha que levam sempre a uma grande amoralidade. Para acentuar a perversidade do «sistema», a acção de The Water Engine decorre durante a Grande Depressão, quando o American Dream era tudo menos um sonho.

(no Ipsilon de hoje)

Tories 44% Lib Dems 25% Labour 24%

Gordon Brown, exemplo acabado do político respeitável, teve ontem o pior resultado eleitoral do Labour desde 1968.

1.5.08

A respeitabilidade

O projecto político de Manuela Ferreira Leite é sobretudo um projecto de respeitabilidade. Respeitável tem dois significados diferentes na língua portuguesa e, já agora, na política. Há aqueles políticos que são respeitáveis porque são merecedores de respeito, embora não votemos neles. E há aqueles políticos que são respeitáveis porque se tornam suficientemente excepcionais e motivadores para nos convencerem a votar neles. O problema de Manuela Ferreira Leite é ser uma política respeitável apenas neste primeiro sentido.

Pedro Lomba, no DN de hoje

Move away

I really believe if a woman is going to move on, she should be required to move away.

«Alan Shore» (James Spader), Boston Legal, série 2, episódio 3

30.4.08

Anne Hathaway, again

Uma das coisas boas numa cidade é o anonimato. Sobretudo porque o anonimato vem associado ao acaso. Como a Anne Hathaway impossivelmente translúcida de outro dia no Marquês que aparece de novo no Colombo, vestida de cinzento mas como se tivesse verdes e amarelos, numa coreografia toda devida ao telemóvel e com a mesma intensa quietude feliz. O anonimato é de repente acaso e o acaso adrenalina e a adrenalina talvez alegria.

29.4.08

Regras e «censura»



Vi esta semana dois documentários banais com uma mensagem semelhante: This Movie is Not Yet Rated (Kirby Dick, 2006) e Fuck (Steve Anderson, 2006). Num caso, é contestada a noção de «obscenidade» (e o seu controlo pela Federal Communications Commission), passando pelas famosas «seven words you can’t say on TV» que deram origem a um magnífico sketch de George Carlin. No outro doc, a instituição atacada é a Motion Pictures Association of America, dirigida durante décadas pelo algo mafioso Jack Valenti. Em ambos os filmes se defende o direito dos criadores a usarem a linguagem e a sexualidade que acharem necessária. Ambos ouvem um punhado de talking heads, mártires da liberdade de expressão como Steven Bochco, Hunter Thompson, Howard Stern e, ah pois, Tera Patrick, ou cineastas controversos como Kevin Smith, John Waters Atom Egoyan ou Matt Stone. São exibidas provas convincentes que denunciam a ideologia puritana e preconceituosa da FCC e a MPAA, no primeiro caso agravada pelo poder sancionatório e no segundo pelo secretismo do processo.

Por mais «libertário» que eu me sinta em matéria de criação artística, creio que estes documentários vão longe de mais quando usam o termo «censura». Censura é proibição. Ponto final. Uma classificação de NC-17 prejudica muito a distribuição de um filme, mas não o elimina. Uma indisponibilidade dos canais generalistas para passar certo programa não impede que ele passe com total liberdade em canais pagos como a HBO. Eu não tenho nenhuma objecção a cenas de nudez ou a «fucks» repetidos tantas vezes como em Tarantino: mas há quem tenha, adultos e pais de crianças. Essas pessoas têm o direito de estar protegidas, desde que não impeçam em absoluto a liberdade criativa dos outros. Se alguém quer mostrar uma orgia num filme, tem de aceitar que essa orgia não seja exibido na maioria dos cinemas ou em canais abertos (passe a expressão). Ninguém tem direito a proibir a liberdade criativa, mas também ninguém tem direito a esfregar caralhos e caralhadas na cara dos espectadores desprevenidos.

Sou contra a proibição de quaisquer criações artísticas, excepto aquelas que incentivem objectivamente a prática de crimes previstos na legislação penal. Mas acho que tem de haver regras no mercado, regras éticas e deontológicas e mesmo de defesa do consumidor. Os americanos têm uma obsessão puritana com o sexo, que faz com que toda a violência passe mais facilmente que um simples mamilo, mas isso é a psique americana, que não muda por decreto. Independentemente disso, concordo que há imagens com um conteúdo «potencialmente chocante», ainda que esse critério varie com a geografia e a época. Se há um número representativo de pessoas que se chocam determinados filmes ou programas, então é lícito que esses filmes ou programa seja exibidos em canais de assinatura ou em sessões para maiores de idade. Isso também é a liberdade. E isso de modo nenhum se confunde com a censura.

28.4.08

O Original de Laura



«Inspiration. Radiant insomnia. The flavour and snows of beloved alpine slopes. A novel without an I, without a he, but with the narrator, a gliding eye, being implied throughout». Vladimir Nabokov tomou notas como esta e escreveu várias páginas (aliás, vários cartões) de um romance chamado The Original of Laura, mas morreu sem que o tivesse terminado. Depois de muitas hesitações, o filho de Nabokov, Dmitri, decidiu agora dar à estampa o texto, mesmo sabendo que vai contra a vontade do pai. Em The Original of Laura (a Laura de Petrarca e Giorgione e Preminger?), o narrador recebe um romance chamado My Laura, e descobre que o romance é sobre a sua mulher. O jogo começa logo no título: o original de Laura é apenas aquele romance dentro do romance ou é também uma Laura original, fantasiada e depois transformada em simples mulher concreta?

O cinema comercial

Se o «cinema comercial» é um cinema que pode ser visto por toda a gente, que não tem grandes complexidades narrativas ou interpretativas, que não exige leituras ou conhecimentos especiais, que lida de modo directo com os anseios e os medos básicos, então não tenho absolutamente nada contra o cinema comercial: We Own the Night, por exemplo, é grande cinema comercial (a família como tragédia inelutável).

Se «cinema comercial» é aquele cinema feito para agradar ao maior número de pessoas, então não me interessa de todo. Não gosto de nada que seja feito para agradar «ao maior número de pessoas». De nada nem de ninguém.

No teu sofá



A melhor cena de abertura do ano, de um dos melhores filmes do ano (We Own the Night, James Gray), tirado de um site de, cof, cinema. Sonâmbula e excitante, uma cena a todos os títulos notável, dos Blondie ao mamilo, passando, se me dão licença, pela revisitação de um dos momentos mais memoráveis da minha biografia erótica (eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes).

26.4.08

Paredes de vidro

Se há coisa que falta em absoluto ao secretário-geral do PCP é precisamente a dialéctica. O mais que consegue, graças a um longo treino, é ocultar a estreiteza das ideias sob uma floresta de retórica.A argumentação desdobra-se numa chata enumeração de categorias, em que tudo se subdivide no primeiro aspecto, no segundo aspecto, no terceiro aspecto, no “por um lado” e “pelo outro lado”, nos seis critérios, os quatro fundamentos, e por ai fora. Até nos conduzir às subtis distinções escolásticas entre o partido de “novo tipo” e o partido de “tipo novo”, os problemas dos quadros e os problemas de quadros, ou os dois significados da palavra “organização”... Estamos em pleno S. Tomás de Aquino. Daí também o tom de moralismo sentencioso desta obra, que traz à ideia o famoso “Para ser um bom comunista” do falecido Liu Chao-chi. Como os velhos sábios chineses, Cunhal tenta segurar o passado atrás de normas de conduta minuciosas. Lá vem o elogio da modéstia e da pontualidade, a prevenção contra a arrogância, a condenação da lisonja, o amor pela verdade... Não estamos perante um livro pedagógico, como lhe chama caridosamente Baptista-Bastos (no Diário Popular de 4/9), mas perante um insuportável catecismo de preceitos virtuosos.

Ao mesmo tempo, este velho moralista tenta desastradamente mostrar-se moderno, para não afugentar os jovens. Tal qual como os padres da nova vaga que abrem a igreja ao rock. “Um comunista não deixa por isso de ser um ser humano”: pode-se rir, fumar, beber um copo, “viver mais ou menos intensamente o amor”. Pode-se harmonizar a militância com a vida pessoal. Que ninguém tenha vergonha de ser feliz. Não é necessário confundir dedicação com sacrifício. Etc., etc. Seria bem bom se o problema da modernização do revisionismo português se resolvesse com aberturas destas. (…) Por isso, Cunhal sente-se emparedado. Para a frente, fica um revisionismo moderno, sem preconceitos, “à italiana”, que ele, por formação e instinto, se sente incapaz de adoptar. Lá muito para trás ficou o marxismo revolucionário dos tempos heróicos, com que ele há muito cortou, faz agora precisamente meio século. Com esta obra, ele tenta dar continuidade a uma das suas melhores criações, um sistema firme, equilibrado e elástico de vida partidária que fez do PCP um dos mais eficazes partidos pequeno-burgueses para operários. Parece muito duvidoso que o consiga.

É verdade, com a morte de Francisco Martins Rodrigues (1927-2008) aproveitei para ler alguns números online da revista Política Operária. Os textos de Martins Rodrigues são dos mais consistentes (e certamente os mais claros) de entre os escritos por ideólogos marxistas portugueses. Dissidente do PC, não cansou de atacar Cunhal pela esquerda. FMR considerava-se um comunista revolucionário, na tradição leninista, e criticou o «revisionismo» de Cunhal, plasmado na defesa de uma «unidade nacional antifascista» com a burguesia (em vez de uma «vanguarda revolucionária do proletariado») e no apoio incondicional à URSS. Tenho perfeita consciência de que a «pureza revolucionária» de FMR e de outros como ele representava o que sempre representa quando triunfa: fuzilamentos. E no entanto, as suas análises políticas são geralmente sólidas e inteligentes, especialmente os minuciosos ataques às estratégias do PC ao longo das décadas.

O texto citado (sobre O Partido com Paredes de Vidro, 1985) é cirúrgico na desmontagem da retórica cunhalista, do «tomismo» marxista à «modernização» desajeitada, passando pelo «moralismo sentencioso». Cunhal escrevia bem quando escrevia seco, quando não se justificava nem se enredava em parêntesis mal fechados; mas como teórico, convenhamos, não era nenhum Gramsci. O PC foi um partido da resistência e depois um partido tacticista. O apoio canino à União Soviética fez o resto. Com essas limitações involuntárias e escolhidas, o pensamento crítico estava amarrado e todos os malabarismos argumentativos valiam. A extrema-esquerda sempre teve argumentos terroristas ou lunáticos, mas às vezes conseguia alguma agilidade conceptual. E, em casos como este, vemos um pensamento mais estruturado e mais denso do que «a cassete» do costume.

O Expresso dedicou 5 linhas à morte de FMR. É ridículo. Francisco Martins Rodrigues foi um ideólogo marxista importante. E o marxismo não é uma nota de rodapé na história das ideias contemporâneas.

24.4.08

Qui tollis (2)



A actriz americana Alicia Witt

O mundo das mulheres

Mesmo assim fiquei com ideia de que gagaguejei, de que me repeti, de que andei em círculos, de que me mexi catorze vezes no sofá, de que suei, de que meti a barriga para dentro e ela não ia, de que puxei as mangas do casaco, ajeitei as folhas, beberriquei a água à passarinho, fiquei com ideia de que disse Martin Lynch e David Scorsese, mas enfim, qualquer figura triste justificava a figura dela, e ainda por cima é realmente simpática e eu nem nunca acho ninugém simpático, há dias em que sou especialmente evangélico.

As mulheres complicadas

Uma vez um mail de um leitor que não me conhecia de lado nenhum: «sou como tu, gosto de mulheres complicadas», li aquilo e não podia negar, gosto de mulheres complicadas, só gosto de mulheres complicadas, como é que ele sabia?, lembrei-me de como gosto de mulheres complicadas num telefonema há minutos, uma coisa de nada, uma frase mais que trivial, uma sugestão, e logo tudo tão complicado, segundos e terceiros sentidos, um caso tão grande de coisas tão pequenas, e naturalmente sofro com isso e estupidamente gosto disso, das mulheres complicadas, e pelos vistos nota-se.

Das mulheres em política

Acho muitíssimo bem mais mulheres na política, como aliás em todo o lado. Acho muito bem a ministra da defesa espanhola agora grávida e a Condoleezza e a Bachelet e a senhora Merkel (de preferência sem aquele decote que levou à ópera). Acho muito bem a Manuela (que devia ter chefiado o Governo em Julho de 2004) e até acho bem a senhora Clinton (como candidata). Tudo desde que não me venham com a conversa de que as mulheres são diferentes em política. Desde sempre ouço essa tanga de as mulheres serem diferentes em política, mais pacíficas e compassivas e compreensivas e atentas, e depois eu perguntava sempre «e a Thatcher?» e as mesmas digamos «feministas» ficavam abespinhadas «essa não é uma mulher», ah, compreendi-te.

Ficar



23 de Março [de 1950]

O amor é verdadeiramente a grande afirmação. Queremos então ser, queremos contar, queremos - se for preciso morrer - morrer valorosamente, com esplendor, ficar, em suma. E, no entanto, a vontade de morrer, de desaparecer, está sempre ligada ao amor: talvez porque, sendo ele tão tiranicamente vida, desaparecendo no seio do amor, a vida seria ainda mais afirmada?

Cesare Pavese, O Ofício de Viver [1952], trad. port. Alfredo Amorim, Relógio D'Agua, 2004

Um segredo a um só ouvido

Já falei para 300 pessoas e já falei para 2 pessoas. Não faz assim tanta diferença. Quando a gente entra e avalia um auditório, isso talvez afecte o ânimo. E as reacções ou silêncios também têm a sua importância. Mas no essencial o número de pessoas não importa muito. Há uns meses, falei numa livraria sobre Beckett (no dia do seu centenário), lendo e comentando algumas passagens. Estavam talvez 8 pessoas e correu muitíssimo bem. Nunca com salas cheias consegui o mesmo grau de intimidade e entusiasmo. Ser um dos meus autores de cabeceira ajudou. Aconteceu o mesmo ontem, quando li algumas páginas do diário de Pavese (que nasceu há cem anos) para uma audiência de 6 pessoas. O Ofício de Viver é um dos livros da minha vida, e aquele gesto de pôr a morte entre a escrita e a publicação não pode ser recebido como se de mera literatice se tratasse. E portanto nada havia ali daquela pose kultural que às vezes assumimos por desfastio. O Ofício de Viver é vida também porque foi assinado pela morte, e é literatura também porque foi cuidadosamente deixado como tal, numa pasta com a anotação Il mestiere di vivere (1935-1950), antes de Pavese (como ele talvez gostasse de dizer) ter ido dormir. Falei para seis pessoas, ao começo da noite, numa livraria de centro comercial, e não sei se alguém prestou a mínima atenção, mas sei que foi melhor do que falar para uma multidão. É exactamente como diz o poema: «Não podendo falar ao mundo inteiro/ direi um só segredo a um só ouvido».