22.8.08



Beckett, lince geométrico na esquina de uma estante. Marilyn com os olhos já envelhecidos segurando um copo contra o decote. Um Capote jovenzinho e insinuante num jardim tropical. Duchamp atrás de uma roda inútil de bicicleta. Piaf, a trágica sonâmbula. A beleza estranha e vertical de Giacometti. Camus de sobretudo e beata. Pound, majestoso leão exausto. Balthus acariciando um gato desconfiado. O aristocrata Faulkner a um canto da imagem, com dois cães pelas costas. Colette com roupa e maquilhagem a mais. O severo Braque. O modesto Bonnard. Matisse de roupão fazendo esboços no meio de pássaros saídos das gaiolas. Sartre de cachimbo com uma cidade nebulosa em fundo. A cabeça descomunal de Neruda. Genet de mangas arregaçadas e aspecto de rufia. Breton captado com evidente temor reverencial. Há poucos legados artísticos tão impressionantes como os retratos de Henri-Cartier Bresson, fotógrafo que Gombrich comparou a Vermeer e Velásquez. Em vez de romances inúteis, invistam por exemplo em An Inner Silence: The Portraits of Henri Cartier-Bresson (Thames & Hudson, 2006). É uma espécie de Louvre portátil.

Henri Cartier-Bresson nasceu na região de Paris a 22 de Agosto de 1908, fez agora um século, e morreu quase centenário em 2004. (...)

[no Público de amanhã]